O FIM DO DIREITO A SUA AUSÊNCIA

Não temos mais o direito de “estar ausente”. Com toda esta modernidade, bem ao nosso alcance, fica difícil se dar ao luxo de sair de cena. Antigamente era gostosa a ideia de não sabermos sobre a outra pessoa. Tinhamos que ficar horas tomando coragem para discar o número, e quando chamava a primeira vez, muitas vezes desligávamos correndo, antes que a pessoa atendesse. Não tinha identificador de chamada. Sim, você podia se dar ao luxo de desistir antes do segundo toque. Quando a saudade apertava, você ligava pra casa da pessoa, no horário que ela estava no trabalho, só para escutar a voz dela na secretária eletrônica. Tinhamos telefone fixo. E torcíamos para a pessoa atender antes do pai ou da mãe, para evitarmos o constrangimento. Não tinha SMS, não tinha Whatsapp, não tinha Facebook… Para encontrar a pessoa, tínhamos que aparecer no lugar que imaginávamos que ela pudesse estar. Ninguém postava fotos, ninguém fazia check-in, ninguém anunciava onde estaria. Em lugar algum. Internet era após a meia noite. Discada. E torcendo para nenhuma boa alma te ligar e te desconectar da internet. Posso escutar agora mesmo o barulhinho da internet discando e conectando. Tínhamos o fenômeno da ausência, podíamos nos dar ao luxo de sumir. Hoje, você resolve ficar ausente, sumir, não dar o ar da graça, e a pessoa fica abrindo e fechando sua janelinha para ver a última hora que você esteve online. E pior, ainda fica te questionando porque você estava online e não falou com ela. Alguns ainda vão mais além, e querem saber com quem você tanto falava, porque ficou 9 minutos online direto. Sim, a pessoa cronometra. Você quer se desligar do planeta, quer viajar, ficar um final de semana inteirinho sem dar notícias a ninguém, mas sua paz termina ao ligar o celular, com milhões de mensagens querendo uma explicação para o seu sumiço, perguntando se você está bem, o que aconteceu… Hoje não conseguimos mais deixar a pessoa sentir nossa falta, vislumbrar nossa ausência. Pra valorizar o seu passe, só postando uma bela e provocante foto no Instagram, porque sumir tá difícil. Você acorda decidida a não entrar no Whatsapp naquele dia, quer deixar o mundo sentir um pouco a sua ausência, mas recebe uma mensagem da sua mãe, e mãe a gente tem que responder na hora. Você decide ligar e responder pelo telefone, para evitar ter que entrar no tal sistema, mas perde 3 minutos tentando explicar pra sua mãe o porquê você ligou ao invés de responder pelo Whastapp. E quando consegue, ainda escuta de volta um “para de frescura”. Aí, mais meia hora e o grupo do trabalho começa a movimentar questões importantes e você tem que opinar, mas… SE opinar, ficará online e SE ficar online, terá perdido o direito a ausência, e terá que responder aquelas quatro pessoas chatas que te mandaram mensagens e que você, por estar ausente, não tinha a obrigação de responder. Agora tem. Você ficou online. E junto, toda a magia perdeu a graça. A magia da ausência que tanto era interessante, de não saber como achar, como encontrar, como falar, como chegar perto da pessoa que tanto queríamos. Era tudo mais difícil, e o difícil sempre foi mais gostoso. Good Times…. 

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